Um blogue de notícias, publicado por Miguel Marujo, jornalista com a carteira profissional nº 5950. O ponto de partida do repórter é Lisboa, mais como espaço físico onde se situa o jornalista, do que como único motivo de reportagem. Aqui não descobrirá a história ao minuto, mas uma tentativa de manter um olhar atento e, eventualmente, diferente sobre a Cidade. Envie-nos o seu alerta, a sua sugestão ou o seu comentário para mmarujo@gmail.com

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9.4.07

Postais de Lisboa: uma má prática na cidade


[esplanada do restaurante Pic-nic, no Rossio, em Lisboa, hoje às 13 horas; foto de telemóvel por MM]


Lisboa é uma cidade que vive de costas voltadas para o sol. Ao contrário de Paris ou Londres, onde é possível gozar esplanadas em dias improváveis, a capital portuguesa não parece tirar partido da magnífica luz que a cidade tem. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra: há cafés e restaurantes que, por vezes, se julgam donos e senhores do espaço público, como demonstra a foto tirada hoje no Rossio.

Os responsáveis do restaurante Pic-nic entenderam por bem ocupar quase toda a largura do passeio, com mesas e cadeiras para aumentar a já generosa esplanada, em dia de muito sol e turistas, mas sem deixarem muito espaço para lisboetas e visitantes passarem, numa zona de intenso movimento pedonal. Restava a alternativa de dois estreitos corredores entre as mesas e entre estas e uma paragem do autocarro. Se esta ocupação for ilegal, lamenta-se a pouca celeridade da fiscalização camarária (tão lesta noutros casos, como o do cartaz dos Gatos Fedorentos), se for legal, mais se lamenta que a autarquia pactue com uma imagem tão desmazelada da cidade.

16.3.07

Pilaretes "atiram" peões para fora dos passeios

A gincana a que os peões lisboetas estão obrigados é conhecida, numa cidade em que o automóvel é rei e senhor (ver notícias relacionadas. Para facilitar o trânsito de pessoas, a Câmara procura soluções que impeçam o estacionamento ilegal nos passeios. Mas que dizer de soluções que são elas próprias obstáculos à utilização dos passeios pelos próprios transeuntes?

Este exemplo é da Travessa do Torel (junto ao Campo dos Mártires da Pátria), mas há outros por essa cidade fora: a colocação de pilaretes para impedir o estacionamento automóvel é feita de tal modo em passeios tão estreitos que os peões são obrigados a partilhar o alcatrão com os carros que passam. Apesar de não ser visível na imagem, o passeio do outro lado da pequena travessa, sem pilaretes, está ocupado por automóveis. A menos de 100 metros há um parque de estacionamento público. Com lugares livres, como constatou o LxRepórter esta sexta-feira ao início da tarde.

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Xeque ao peão

13.12.06

Três postais ilustrados de Lisboa















O peão em Lisboa compete com o trânsito, denso, caótico, rápido. Com obstáculos, mais ou menos inesperados. Estas três fotos (captadas por telemóvel) representam três faces diferentes de um dia-a-dia já aqui retratado por palavras antigas (de 2002) mas que permanecem actuais. No primeiro caso (em cima, à esquerda), nos Olivais, na Avenida Dr. Francisco Luís Gomes, no entroncamento com a Avenida de Berlim, os peões têm durante uma boa centena de metros um passeio com dimensões junto a uma via de velocidades rápidas. A segunda imagem (em cima, à direita) retrata o aperto para quem se atreve atravessar nesta passadeira do Príncipe Real, entre uma paragem de autocarro (que ocupa o espaço da passadeira, quando parado) e uma bomba de gasolina. Por fim (foto em baixo), ao lado de uma outra paragem de autocarro, no Largo Trindade Coelho, ao Bairro Alto, um painel de propaganda da autarquia (degradado e desactualizado) anuncia que «Lisboa vai ficar mais bonita». E cheia de obstáculos, para quem caminha nos passeios da capital.

25.11.06

Reportagens do baú: Xeque ao peão

[publicada originalmente a 20 de Junho de 2002, no Portugal Diário; para comparar com a actualidade...]

Os carros batem aos pontos os peões. Que têm de correr para atravessar avenidas ou circular em passeios cada vez mais estreitos

Vermelho. Sete segundos: É quanto demora o sinal verde para peões numa passadeira da Avenida da Liberdade, em Lisboa. Cinco faixas de rodagem têm de ser atravessadas em passo ligeiro.

Amarelo. Avenida Egas Moniz, em Lisboa. Junto ao Hospital de Santa Maria, os passeios largos foram reduzidos a metade de um lado e outro da artéria. Para criar espaços para paragens de autocarros e alargamento das faixas de rodagem.

Verde. As ruas da Baixa e do Chiado, na capital, vão ser fechadas ao fim-de-semana a veículos privados. Um balão de oxigénio para eventuais medidas mais ousadas, como a pedestrianização de alguns bairros.

Não é fácil ser peão no xadrez urbano. As estatísticas também o mostram friamente: este ano, nos primeiros quatro meses, dentro das localidades morreram mais doze pessoas do que em igual período do ano passado. E «a maior parte das vítimas pertence aos grupos etários dos mais idosos (24,4 por cento) e dos mais jovens (20,6 por cento)», como se lê num relatório de sinistralidade da Direcção-Geral de Viação.

«O automóvel foi-se assenhoreando da cidade, não só pelo estreitamento dos passeios como também ocupando os passeios, os largos», constata Fernando Nunes da Silva, urbanista.

Exige-se uma «outra opção política». «A cidade esgotou-se, não se pode sacrificar os que cá vivem», defende Nunes da Silva, que acrescenta outras soluções: «O desenho urbano deve ter em conta a circulação dos peões», é necessária «uma outra política de transportes», que «atenda às necessidades das pessoas nas suas deslocações; «uma maior intervenção da polícia»; «um maior respeito pelas passadeiras»; e «um controlo semafórico que privilegie o peão».

«Os grandes investimentos que se fazem são para os carros», acusa na mesma linha Manuel Costa Lobo, ex-provedor municipal do ambiente e da qualidade de vida urbana em Lisboa. Este professor universitário recorda ao PortugalDiário que «as cidades foram pensadas para os peões» no início do século XX. O Passeio Público em Lisboa é disso exemplo. Uma tendência que começou a ser contrariada na segunda metade do século, com a democratização do automóvel.

Costa Lobo dá outro exemplo lisboeta - mas, porventura, verificável noutras cidades: «Não foi pensada qualquer ligação pedonal entre Telheiras e o Campo Grande». Também Nunes da Silva aponta o dedo aos novos bairros na capital. «Aumenta-se a cércea [dos prédios] na mesma proporção que se diminui a largura dos passeios», diz, lembrando - só em Lisboa - Carnide, Lumiar, Quinta dos Barros e Telheiras.

Estas críticas foram "bandeiras" também na campanha de Pedro Santana Lopes, o actual presidente da autarquia: «Que a Câmara promova uma política que liberte os passeios para as pessoas, mas reclame a responsabilidade da rua para si ("Os passeios para as pessoas, as ruas para a cidade")», lê-se.

Das palavras aos actos já vão seis meses. Mas ao PortugalDiário Carmona Rodrigues, vice-presidente da autarquia com os pelouros do Trânsito e do Planeamento Urbanístico, confirmou a intenção em fechar alguns bairros aos carros. Nos fins-de-semana para começar.

Outra ideia defendida pelo vereador passa por «salvaguardar os passeios» do estacionamento selvagem, com a utilização de parques de estacionamento que estejam vazios à noite, como por exemplo na Alameda D. Afonso Henriques. «A preços simbólicos para os residentes».

Carmona Rodrigues defende que é preciso criar «contrapartidas que não penalizem quem tem carro». Mas muitas alterações à circulação prejudicam quase sempre o peão. «Cada serviço puxa a brasa à sua sardinha», reconhece o vereador. Até lá, o peão é servido enlatado... entre automóveis.


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nota: ao fim-de-semana, o Lx Repórter recupera antigas reportagens, que de algum modo permanecem actuais]

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