Um blogue de notícias, publicado por Miguel Marujo, jornalista com a carteira profissional nº 5950. O ponto de partida do repórter é Lisboa, mais como espaço físico onde se situa o jornalista, do que como único motivo de reportagem. Aqui não descobrirá a história ao minuto, mas uma tentativa de manter um olhar atento e, eventualmente, diferente sobre a Cidade. Envie-nos o seu alerta, a sua sugestão ou o seu comentário para mmarujo@gmail.com

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15.3.07

“Do indígena ao imigrante”, pretextos para uma conversa

Os desafios da imigração regressam à mesa do debate a partir do tema de capa da edição portuguesa do jornal mensal “Le Monde Diplomatique”. No número de Março, o jornal apresenta um dossiê sob o título “Do indígena ao imigrante”, cujas pistas serão retomadas esta sexta-feira, a partir das 21h30, na Livraria Ler Devagar, em Lisboa.

Os autores de alguns dos artigos são chamados a lançar o mote da conversa da noite. O espaço lusófono é o ponto de partida para dois dos intervenientes: “A Lusofonia, outra forma de colonialismo” por Alfredo Margarido, e “O luso-tropicalismo: um mito persistente”, com Cláudia Castelo. Miguel Bandeira Jerónimo e Nuno Domingos dão o título ao dossiê e ao debate com a sua proposta de reflexão sobre “‘O grémio da civilização’: do indígena ao imigrante”.

Por fim, Hugo Maia e Bruno Peixe Dias avançam com outras duas pistas para este tema: o primeiro com a leitura de “como se constrói um imigrante”, o segundo com uma análise aos “enteados da Nação”.

A conferir esta sexta-feira em conversa, na Rua da Rosa, 145, em Lisboa, a nova morada da Ler Devagar, que é mais do que um espaço livreiro.

15.2.07

Geografias de um explorador apresentadas em Lisboa

Brasil, Angola e Portugal são os territórios das viagens ficcionadas e reais encetadas por Ruy Duarte de Carvalho no seu novo livro "Desmedida – Luanda, São Paulo, São Francisco e volta. Crónicas do Brasil" (ed. Livros Cotovia), que será hoje apresentado, pelas 18h30, na Livraria Almedina (Atrium Saldanha), em Lisboa, por António Mega Ferreira. Este escritor, bem como o autor brasileiro Bernardo Carvalho, já tinham elogiado Ruy Duarte de Carvalho, quando do lançamento das anteriores obras "Vou lá visitar pastores" (1999) e "As paisagens propícias" (2005).

De acordo com a Cotovia, numa nota de apresentação deste novo livro, "o ponto de partida de Ruy Duarte foi a certeza de que o Brasil sempre foi, desde o início da expansão europeia, um terreno privilegiado para exploradores europeus e americanos. Depois, o autor procurou retratar o modo como absorveu as idiossincrasias de tão vasto país, numa viagem que começa em Luanda, tem como destino a grande metrópole de São Paulo e empreende um longo caminho de descoberta ao longo do rio São Francisco".

Os leitores poderão conhecer estas novas paisagens de Ruy Duarte de Carvalho, hoje ao vivo, ou no recato da leitura.

[foto Daniela Moreau/Cotovia]

1.12.06

Reportagens do baú*: Alguém já escreveu o próximo "best-seller"

[publicada originalmente a 11 de Maio de 2001, no Portugal Diário]

Os editores de livros não sabem, ou então são cegos e não querem arriscar. Mas na gaveta ficam esquecidos muitos sucessos, garantem os seus autores. Viagem aos livros que ficam por editar


Há sempre alguém que tem o próximo “best-seller” em casa. Os editores é que não sabem, ou então são cegos e não querem arriscar. Chega de tudo um pouco às mesas dos editores: uma “colectânea de artigos” (assim, como título de livro), contos, livros práticos “tipo-jantares-em-30-minutos” ou “a cozinha da minha avó”, recolha de citações sobre “mulheres” (dado o sucesso deste tipo de livros, garante o proponente) ou poemas, muitos e simples, como aquele que fazia rimar “O3”, com “mês”, “insensatez” e “CFCs”. Lá rimar, rima.

Passe o cliché. Portugal é um país de poetas, muitos poetas. E de contadores de histórias, também muitos. Há sempre alguém que tem o próximo “best-seller” em casa. Os editores é que não sabem, ou então são cegos e não querem arriscar.

Em Portugal, escreve-se muito e os que escrevem anseiam por publicar as suas obras. Os amigos, «a quem dei a ler o livro», gostaram e aconselharam a publicação.

À Bertrand, chegam 20 a 30 exemplares por mês. Na Editorial Notícias também são algumas dezenas as propostas que chegaram à mesa do editor Alexandre Manuel desde o início do ano. «Por amigos, por carta», os candidatos a escritores tentam a sua oportunidade: «Os livros são sempre os melhores, é “o livro que falta”», conta este responsável da Notícias.

Convencer um editor requer alguma estratégia: invocam-se prémios recebidos em pequenos concursos literários locais ou garantem-se prefácios de gente famosa. Ou então cartas charmosas com piscadelas de olho à política da editora. Até aqui tudo bem: o pior é a pressão por telefone, «de pessoas mais ou menos conhecidas», escritores ou nem por isso.

Ainda assim, ser indicado por alguém pode dar resultado. A Bertrand Editora acaba de publicar o primeiro romance de Mafalda Belmonte, enfermeira no hospital de S. José em Lisboa, que agradece «à Paula Bobone» [autora de livros de comportamento social] por lhe ter «“ensinado o caminho” para a Editora».

Da mão-cheia de propostas de edição recebidas pelas editoras, apenas uma ínfima parte é editada, reconhece Zita Seabra, responsável editorial da Bertrand e da Quetzal. Também Alexandre Manuel tem dificuldades em se lembrar de alguma obra que tenha vindo parar às suas mãos, nos últimos dois/três anos, e que tenha sido publicada. Acaba por se lembrar de um: «Casei com um padre, o testemunho de uma vida», relato na primeira pessoa de uma mulher, Fernanda Araújo, que «foi levada a casar-se com um padre». E refere um outro livro pensado para editar, apesar do autor da obra ainda não o saber.

A linha editorial das editoras também ajuda: por causa da «Guerra Colonial» (de Aniceto Afonso), a Editorial Notícias recebe muitas propostas de livros sobre África. Depois do lançamento de «Receitas Afrodisíacas & Desenhos Eróticos» (de Afonso Praça, com ilustrações de Francisco Simões), também lhes chegaram várias propostas deste tipo. E com a indicação de ilustradores preferidos.

Há ainda aqueles que sugerem o esquema de capa, exigem respostas breves (por terem outros editores interessados) ou que apresentam prefácios a atacar... os editores! Os mesmos a quem dirigem as propostas.

Mas não se pense que os editores desdenham das propostas que lhes chegam. «Há livros que se perderão, o que é uma pena», diz Alexandre Manuel, exemplificando com trabalhos demasiado especializados ou, «infelizmente», não comercializáveis. «Outros não se enquadram na nossa edição», diz Zita Seabra que fala também na «subjectividade» da escolha: «ninguém» sabe se está a rejeitar um sucesso retumbante ou um génio da escrita, lembrando as recusas de primeiras obras de Marguerite Duras e José Saramago. Ou a «raiva» em rejeitar uma obra que depois é um grande sucesso noutra editora.

A ética, «esse é que é o limite». Evitar a exploração de temas que estão no «fio da navalha», argumenta a editora da Bertrand. E exemplifica com uma proposta recebida – «uma proposta séria» – sobre a tragédia de Entre-os-Rios.

Arrume-se o cliché. Portugal não é um país de poetas. É um país de pessoas que não sabem ler poesia, sustenta Zita Seabra. «Não é com estados de alma que se conta uma boa história.»


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nota: ao fim-de-semana, o Lx Repórter recupera antigas reportagens, que de algum modo permanecem actuais]

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